As bets e a colonização da experiência social

Artigo publicado no Jornal O Povo (Ceará) em 25/07/2026

O jogo faz parte da história da humanidade. Há registros deste ritual em povos antigos como hindus, gregos e astecas. Os jogos são fenômenos que encantam as massas ao estimular competições e riscos. No Brasil, há um tipo de jogo que ganha destaque histórico, as loterias: aquelas ilegais, como o jogo de bicho; e outras, oficiais, como as loterias estaduais e federal. Decisão do STF, em 2020, inovou sobre o assunto com a liberação das bets – que são plataformas ligadas ao capitalismo digital. Elas reestruturam as antigas “casas de apostas” para aparecerem como dispositivos algorítmicos: operando em tempo real, explorando a dinâmica psicológica do desejo de enriquecimento. Capturam dados sobre os comportamentos dos usuários para manipular esperanças de um ganho quase sempre impossível. Geram, assim, impactos profundos no mercado de apostas, na arrecadação do governo e no comportamento do consumidor. Estudos econômicos mostram que as bets passaram a se apropriar rapidamente do orçamento doméstico dos indivíduos, sobretudo os mais pobres, com o endividamento desorganizando as solidariedades familiares.

A colonialidade clássica se apropriava, sobretudo, de territórios, trabalho e recursos naturais. A colonialidade digital atual invade o inconsciente da sociedade, favorecendo a concentração de riquezas e ampliando as desigualdades. As bets convertem esperança, ansiedade e frustração em capital econômico administrado por algoritmos indiferentes aos danos sistêmicos. O jogador se hipnotiza e entra numa relação simbiótica com o algoritmo. Ele acredita poder controlar o jogo, mas é a plataforma que aprende continuamente com ele e redefine seu comportamento. Sob essa perspectiva, as bets representam uma nova forma de colonização digital do desejo. Convertem vulnerabilidades econômicas e emocionais em fontes permanentes de lucros especulativos.  Na perspectiva da crítica pós-colonial do capitalismo digital podemos dizer que as bets organizam uma perigosa tecnologia de captura da experiência humana que ameaça os ganhos civilizatórios. Os governantes têm, claramente, responsabilidades diretas sobre os desmanches que este tipo de jogo produz sobre as solidariedades primárias.

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