Artigo publicado no O Povo no sábado, 22/08/26
Com a ascensão do neoliberalismo, sobretudo a partir da década de 90, a ideia de Estado-nação passou a ser crescentemente questionada. O sonho de um sistema global gerido politicamente por entidades supranacionais – cuja melhor versão seria a ONU -, era visto como a redenção de todos: dos países pobres, das esquerdas democráticas que criticavam os Estados autoritários, das direitas reacionárias que buscavam neutralizar os dispositivos do poder nacional para liberar o mercado. Porém, em alguns lugares do planeta, como o sudeste da Asia e a China, esta tese do mercado autorregulador foi vista como ilusória; na prática, foi estimulado o Estado planejador. Na América Latina, ao contrário, a crise do Estado desenvolvimentista – criticado por “todos” -, contribuiu para o avanço das teses neoliberais. Vimos o enfraquecimento do poder regulador do Estado e a captura do sistema político nacional pelo capital financeiro especulativo associado a oligarquias parasitárias modernizadas.
Agora, observamos que o imperialismo pós-neoliberal de inspiração trumpista dá uma nova guinada geopolítica, sabotando os regimes republicanos na região como já vimos em Honduras, na Venezuela, na Argentina e, também, na Colômbia. Não se trata mais de ocupar simplesmente o poder nacional por dentro, pelo controle do aparelho de dominação. Trata-se, nesta nova etapa, de desfazer as barreiras políticas, administrativas e jurídicas dos territórios nacionais para facilitar o acesso das empresas a minerais raros, à água e ao petróleo. As forças democráticas resistem, mas são agora obrigadas a lidar com este fato novo, a desterritorialização do Estado-nação. O tema do republicanismo democrático entra num novo estágio de disputas transnacionais, exigindo rever estratégias para descolonizar os dispositivos de produção de crenças coletivas e de paralização do agir público. As lideranças de esquerda tentam salvaguardar os dispositivos de gestão soberana dos estados nacionais na região e oxigenar a utopia da participação democrática. Mas, os fantasmas de golpes arbitrários contra as democracias nacionais assustam até mesmo as mentes mais realistas e prudentes.
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