Embranquecimento e antirracismo (Artigo de jornal)

O embranquecimento racial remete a um contexto entre os séculos XIX e XX em que se defendia a melhoria genética do ser humano tendo como referência o branco europeu. A tese teve ampla divulgação no Brasil, o que se explica pela herança escravista. Aqui, o embranquecimento foi traduzido como legitimação de uma miscigenação entre os brancos e os negros e índios que era uma prática do sistema colonial. Mas o embranquecimento tem uma conotação mais profunda relacionada com a ideologia de superioridade racial, cognitiva e estética dos europeus sobre os demais povos. Neste caso, o branqueamento tem uma face cultural e psicológica colonial. Aparece como um dispositivo de dominação presente nos campos intersubjetivos, levando os indivíduos a buscarem valorizar hábitos e práticas de consumo que assegurem a identificação com a cultural “superior”.

Um mecanismo importante para se entender o branqueamento colonial são as estatísticas. Segundo o Censo do IBGE de 2010, os grupos étnicos se dividem em cinco categorias: branco (47,51%); pardo (43,42%); negro (7,52%); amarelo (1,1%) e indígena (0,42%). Considerando que o Brasil é um país muito miscigenado, é intrigante observar a autopreferência dos entrevistados por brancos ou pardos e não negros ou índios. A alta escolha pelo “pardo” é uma pista para reflexão, pois ninguém se autoproclama voluntariamente assim. Ou houve falta de escolha no preenchimento ou algo mais fundo. Pardo era termo usado no século XIX para designar famílias de ex-escravos. A questão é que este tipo de classificação do IBGE tende a reforçar o estigma do negro associado a pobre e inferior e valorizar o branco e o pardo como caminhos para o embranquecimento.

As lutas anticoloniais em sociedades como a brasileira passam, logo, não pela afirmação de um purismo étnico, mas pela busca de ressignificar culturalmente a miscigenação como resistência política. A escolha pela identidade afro-descendente, por exemplo, eleva para mais de 20% o percentual de negros. Aqui temos os sinais de uma biopolítica antirracista mais adequada para a realidade brasileira.

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