Desmanche da globalização ocidental (Artigo de Jornal)

A desintegração da União Soviética, em 1991, contribuiu para romper as tensões ideológicas bipolares entre capitalismo liberal e comunismo estatal. O historiador F. Fukuyama no seu livro “O fim da história e o último homem”, publicado em 1992, propôs o entendimento de que, a partir deste momento, a história da humanidade conheceria um novo patamar fundado no sucesso do capitalismo ocidental e da democracia burguesa.

A expressão globalização se espalhou tanto em setores intelectuais de direita como de esquerda, sugerindo que a expansão tecnológica, militar, financeira e cultural do Ocidente seria um movimento integrador de capitais e de nações a nível planetário. O “realismo capitalista” se impôs proclamando não haver saídas fora do neoliberalismo, fortalecendo a mensagem niilista de que “tudo o que resta é o consumidor-espectador, cambaleando trôpego entre ruínas e relíquias” (Fisher, 2020).

Mas como a realidade sempre se impõe à ideologia a médio prazo, vimos nestes trinta últimos anos o lento desmanche da imagem uniformizadora da globalização. O Ocidentalismo como programa imperial liderado pelos Estados Unidos, não foi capaz de neutralizar as resistências de dois outros programas imperialistas, o chinês e o russo.

Os recentes eventos de invasão da Ucrânia pela Rússia e de ameaças crescentes da China sobre Taiwan são exemplos claros de que o império ocidental treme face ao abismo que ajudou a criar. O Ocidente está perdendo o controle do poder militar e ideológico tanto no front externo, nas fronteiras geopolíticas, como no front interno, face aos movimentos intelectuais e sociais que denunciam o caráter depredador do neoliberalismo.

Enfim, o “realismo capitalista” fundado no livre mercado é questionado politicamente no plano das fronteiras internas por mobilizações democráticas contra o aumento escandaloso da desigualdade e da pobreza. Os horizontes ainda imprecisos apontam para utopias que racham o sistema de dominação ocidental, sugerindo outros modelos de sociedades mais sensíveis aos problemas ecológicos e às demandas democráticas.

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