Nascimento, vida e morte das democracias (Artigo de jornal)

Publicações recentes discutem a morte das democracias liberais (Runciman, 2017; Levitsky e Ziblatt 2018; Castells, 2018). A notícia surpreende os que se acostumaram com as democracias como algo natural, esquecendo que elas resultam de disputas importantes de narrativas sobre o com-viver numa comunidade ampliada. As democracias nascem, vivem e morrem assim como toda criação humana. Elas se materializam por modelos republicanos complexos que legitimam o aparato material, afetivo, moral, político e simbólico da sociedade nacional. Elas nascem e vivem a partir de um acordo coletivo envolvendo grupos sociais diversos em favor de organização do público democrático e do bem comum. Quando esquecemos as condições históricas de seu nascimento nos tornamos conformistas. Contra este esquecimento devemos manter a memória viva do seu caráter dramático e libertário.

As democracias morrem quando os consensos coletivos começam a ser rompidos. Estes eventos não acontecem de súbito, mas pelo enfraquecimento das instituições jurídicas, políticas, morais e culturais e dos movimentos sociais. As desigualdades sociais e econômicas são os sintomas. Mas a raiz do problema está na recusa de setores das elites (financeiras, rentistas, políticas e corporativistas) de compartilharem as riquezas acumuladas em favor da paz social. Também lembremos os grupos religiosos e facções ideológicas que rejeitam as variedades de crenças e de opiniões. O desprezo pelo pertencimento a uma comunidade solidária contribui para desfazer o pacto sentimental, moral e político da nação. No seu lugar, dissemina-se o revanche, o ressentimento, o medo e a repressão. Surgem as lideranças autoritárias. Os que apostam na morte das democracias ou ignoram o valor da liberdade ou são oportunistas que apenas pensam no poder e no enriquecimento. O momento brasileiro é um convite para reflexão sobre as condições de reinvenção da democracia ameaçada. Como cuidar para que ela possa renascer como um programa de redenção dos milhões de desempregados, abandonados e injustamente esquecidos?

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