A multidão, o público e a sombra anti-democrática (Artigo de jornal)

Em matéria publicada no O Povo, há dois anos atrás, em novembro de 2017, intitulada “A multidão e a luta por visibilidade pública”, escrevi sobre a relação ambígua entre multidão e democracia propondo que “A multidão pode fortalecer ou pode corroer o público democrático. Tudo depende dos dispositivos de produção e de valorização política do bem comum”. E concluía: “Os salvadores de ocasião são invocados para fazer o justiçamento da multidão, mesmo que isto possa significar o sacrifício da democracia e da paz social”. 

Nesses dois anos o Brasil conheceu grandes turbulências políticas: desgaste do Governo Temer, prisão de Lula e eleição inesperada de Bolsonaro. Mas as conexões tensas entre multidão e público se ampliaram, acompanhando o desgaste das instituições governamentais, da democracia representativa e também o refluxo dos movimentos sociais organizados. Para entender os perigos da conjuntura, considero relevante considerar com Gabriel Tarde no seu clássico A opinião e as massas (1901), que a diferença entre multidão e público é de grau mas com impactos decisivos sobre a política. Diz ele: “O público estimula a necessidade crescente de sociabilidades regulares dos membros. Ao contrário, na multidão a individualidade se atenua e predominam as similitudes étnicas demandando um fator externo de unificação como a de um líder”. Com o público se fortalecem as instituições republicanas e a democracia. Com a multidão se instala a incerteza pois as paixões dominam a capacidade de cada um refletir prudentemente e surgem lideranças populistas que tentam capturar o poder. A desigualdade e o desaparecimento dos direitos de cidadania abalam os alicerces da democracia e acenam para saídas autoritárias no Brasil e na região com resultados imprevistos. Reprimir o fenômeno da multidão pela força física amplia o medo, a violência e o conformismo. Aproveitar o momento para fortalecer as políticas de inclusão social é o caminho mais maduro e prudente. Temos que pensar com a cabeça e não com o fígado. Esta é uma meditação para todas e todos.

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