O medo da Democracia (Artigo de jornal)

A democracia é como um ente amado que admiramos, mas que ou não conhecemos bem ou resistimos a acolher sua generosidade. Ela é o regime político mais complexo que já criamos, permitindo conciliar liberdades individuais e coletivas, respeitando as diferenças. As sociedades que a conhecem, lutam para preservá-la; as que a perderam sonham com seu retorno. 

A democracia nos ensina que viver solidariamente, respeitando nossas identidades individuais e coletivas, é o bem mais precioso do humano. Pertencer a uma família, a uma comunidade religiosa ou cívica, ou a um grupo nas redes virtuais, nos faz sentir vivos.  Mas para se viver em sociedade precisamos compartilhar algumas regras e valores básicos: uma língua, crenças que dão sentido a nossas existências e normas sociais e culturais. Triste é a vida de quem pensa que pode viver sozinho de costas para a sociedade. Porque tudo que consumimos – a roupa que vestimos, a comida da mesa, o carro que nos transporta, a água encanada ou a luz elétrica – é produzido por outras pessoas das quais dependemos. A democracia nos ensina que todos esses serviços coletivos podem ser melhor usufruídos e distribuídos quando entendemos o valor de um horizonte social mais amplo que não se limita a meus interesses egoístas.

A dificuldade de sair de si para se encontrar com outros(as) é o grande problema para viver a democracia. Afetos negativos como ressentimentos, ódios e preconceitos bloqueiam o fluxo livre e igualitário da vida. No seu livro O medo à liberdade, E. Fromm (1941) explica que o excesso de preocupação dos indivíduos com a liberdade material e econômica contribuiu para gerar um clima de solidão que está na origem do medo e da angústia dos modernos. Assim, nascem os sistemas autoritários e morrem as democracias. Tudo é uma questão de escolha e de responsabilidade: conosco individualmente, com nossas comunidades e com as gerações futuras. Por uma questão de sobrevivência devemos nos desgrudar do sentimento de revanche parido pelo medo para visualizar a liberdade na democracia.

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