Ainda somos brasileiros? (Artigo de jornal)

A resposta depende da perspectiva de observação. Se for jogo do Brasil na copa do mundo todos são brasileiros, independentemente de condição social, de gênero, de etnia ou de religião. Se for manifestação de rua a unanimidade não é tão evidente. Vestem a camisa verde e amarela o grupo que se identifica como genuinamente defensor do Brasil, hostilizando os demais considerados como mal brasileiros. Em ambos os casos, as dimensões festivas e antagonísticas tocam apenas superficialmente a questão central: a função da nacionalidade na organização de um sentimento moral coletivamente compartilhado para criar um arco de solidariedades que viabiliza a sociedade nacional. 

Mas para que este sentimento possa brotar são necessários alguns dispositivos: língua, território, memória e, sobretudo, políticas públicas que integrem todos os indivíduos na invenção de uma cidadania universal. Isto implica em um estado que promova ações emancipadoras – educação, trabalho, economia, saúde, infraestrutura, segurança -, gerando reconhecimento mútuo que é o fundamento do sentimento de nacionalidade positiva. Quando a sociedade se fratura pelo excesso de desigualdades, de intolerâncias religiosas ou políticas, a parte mais forte valoriza o que Z. Bauman (1998) denomina de racismo-nacionalista. Este é o caminho para se implementar políticas de limpeza étnica e racial como vimos nos casos da Alemanha nazista nos anos 30, ou nos anos 90 nos massacres dos bósnios mulçumanos pelos sérvios na antiga Jugoslávia. 

O “brasileirismo” como arco de solidariedade moral e afetivo nacional está fraturado pelas desigualdades, ressentimentos e mentiras. A nacionalidade brasileira tem apenas caráter funcional – registro em cartório, carteira de identidade ou passaporte – mas não agregador. As elites financeiras e empresariais que definem as políticas macroeconômicas a partir de cálculos egoístas que desprezam o social, deveriam meditar sobre suas responsabilidades ao semear os germes da violência e do fanatismo os quais podem envenenar o projeto ambicioso de lucros imediatos.

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