Anti-intelectualismo e ameaças à Democracia (Artigo de jornal)

Intelectual é todo individuo que realiza alguma atividade mental nos campos da filosofia, da ciência, da arte, da literatura, da religião, expressando-se em nome de uma autoridade legítima assegurada pelas tradições ou pelos méritos. Toda sociedade produz seus intelectuais para pensar as técnicas, as regras, os valores, as instituições e as utopias. Em muitas comunidades tradicionais os Idosos eram reconhecidos como os sábios; em outras, os sacerdotes, os pajés, e os filósofos. Com as revoluções modernas, na Europa, surge um novo tipo de intelectual, o cientista, organizando o saber da sociedade não a partir de crenças religiosas, mas de pesquisas empíricas sobre a natureza e a sociedade. Graças à ciência moderna usufruímos das vacinas, da energia elétrica, do automóvel, dos celulares e da internet. Mas o avanço da filosofia, das ciências, da literatura e das artes, teve uma condição: a liberdade do intelectual cientista para criar livremente sem estar submetido a constrangimentos mágicos. 

Anti-intelectualismo é a ação de colocar sob suspeita moral a autoridade legítima dos cientistas, filósofos e escritores. Sua base emocional é o desencanto com a utopia moderna da emancipação racional humana, reforçando visões apocalípticas. A democracia apenas prospera com um intelectualismo generoso e plural e regride com o anti-intelectualismo. No Brasil, ela sempre esteve associada a dois movimentos intelectuais vigorosos: a universidade pública e a imprensa. A primeira se constituiu no dispositivo mais amplo de promoção da ciência, do ensino e da pesquisa com inclusão social; a segunda, foi e é decisiva para dar transparência às informações e subsidiar a opinião pública. Neste momento de amplo desencanto existencial e político, é importante valorizar o intelectual que pensa a sociedade com generosidade e sem preconceito e revanchismo. As divergências de ideias não devem ser vistas como ameaça, mas como condição para a manutenção das práticas democráticas. Como no jogo de futebol: tem que haver regras comuns, mas, sobretudo, dois times que respeitem suas diferenças e transformem a disputa pela bola num belo espetáculo coletivo.

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