Dinheiro é sonho, mas pode ser um pesadelo (Artigo de jornal)

Para a grande maioria das pessoas o dinheiro aparece como algo muito concreto. Mas a história não é bem assim. Trata-se de uma convenção social e cultural que diferentes sociedades adotam para criar um equivalente geral que permite a transação de bens e serviços. Ele funciona bem quando todos acreditam no seu valor coletivo para usos imediatos ou futuros. Como convenção o dinheiro encerra um processo complexo de institucionalização sempre dado nos limites de uma dada coletividade. Se o Real tem muito valor no Brasil, ele tem significado nulo na Tailândia onde as pessoas apenas reconhecem o Baht, e vice-versa. É certo que algumas moedas como o Euro ou o Dólar parecem ter um valor mais amplo. Mas elas não são universais, dependendo de fundamentos econômicos e políticos nacionais sólidos. 

O dinheiro tem, sobretudo, função simbólica, sendo importante para significar a vida, para permitir o sonho da comida na mesa, da roupa, da casa própria e das viagens sentimentais ou turísticas. Ele é significado por experiências compartilhadas no mundo das mercadorias, das riquezas e do poder. Mas o dinheiro pode ser um pesadelo quando vivido como excesso ou como escassez, estas duas possibilidades opostas deste mundo profundamente desigual. Quando se ganha dinheiro fácil sem relação com o trabalho concreto a vida se consome no desperdício. Quando se vive na escassez a vida se consome na raiva, na tristeza e na frustração. O dinheiro gera, então, poder, prestígio e reconhecimento, ou, no lado contrário, impotência, humilhação e servidão.

Há que se repensar os usos solidários do dinheiro pois estes existem na vida real. Simbolicamente o dinheiro não se sustenta no mercado, mas na confiança de haver  reciprocidade entre as partes envolvidas. Existem experiências de dádivas que libertam o dinheiro do mero interesse material: no seio das famílias, dos amigos, das associações solidárias ou das doações humanitárias generosas. Revalorizar o dinheiro como símbolo de coesão social é um objetivo essencial para a humanidade sair do pesadelo maior produzido pela generalização da violência sistêmica e da crise ambiental, reconstruindo o sonho de uma sociedade mais convivialista.

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