A opinião pública começa a entender que a corrupção é uma enfermidade. Este é um bom avanço por acender nossa indignidade moral, mas, insuficiente, para se proceder à sua erradicação. Historicamente, a corrupção é uma modalidade de organização do poder oligárquico, sendo operacionalizada por relações interpessoais. Ela constitui uma derivação histórica da lógica do mandonismo que estrutura as sociedades patrimoniais pelas trocas de favores. A estruturação do poder por relações personalizadas precede a existência do mercado liberal na Europa mas permanece estratégico para o jogo das elites no atual contexto neoliberal. A forma tradicional do mandonismo era o clientelismo de “curto alcance” próprio de sociedades menos complexas e cujo símbolo é o velho “coronelismo” brasileiro tão bem retratado por Vitor N. Leal no seu “Coronelismo, enxada e voto” (1949).
A forma contemporânea deste mandonismo é o clientelismo de “largo alcance” próprio de sociedades complexas onde circulam grandes quantidades de dinheiros e bens estatais. Tanto no velho como no novo mandonismo o sucesso do projeto de poder depende de amplo acordo das elites oligárquicas sobre a apropriação dos recursos públicos. Cada um tenta levar vantagem do seu jeito: os empresários querem investimentos para os negócios; os banqueiros, ganhos crescentes com juros da dívida pública; os rentistas, rendas para usufruir a vida sem trabalho; os políticos, fundos para campanhas eleitorais; os burocratas, privilégios que assegurem a força das corporações. As modalidades de acordos seguem os jogos pragmáticos de poucos e não os interesses da maioria.
Mas a publicização dos fatos está exigindo mudanças. O antídoto mais justo seria a formação de comunidades discursivas que favoreçam as responsabilidades individuais e a transparência em diversos níveis decisórios: desde a família até as organizações complexas. A valorização da esfera pública local e dos direitos de cidadania seria um passo decisivo para reabrir os horizontes democráticos.