Por onde se movem as Ruas? (Artigo de jornal)

As Ruas se movem sempre, mas não necessariamente por caminhos democráticos. Hitler e Mussolini mobilizavam multidões. No Brasil, as conquistas mundiais da Seleção Brasileira de futebol geraram catarses coletivas. Os partidos políticos de massa reúnem grande número de indivíduos assim como festas populares vibrantes como o Carnaval e o São João nordestino.

Em geral, os grandes fenômenos de massas nascem de tragédias que permitem sair das rotinas banais e estressantes para se viver o excepcional, o fascinante, a curiosidade mórbida com os limites da existência humana. O fenômeno é psicológico e cultural. Ele se torna político e público quando surgem as utopias. Quando as pessoas entendem que vale a pena sair do conforto cada vez mais inseguro da vida privada ou da preguiça oferecida pelos aparelhos de TV para se mobilizarem por algo maior. Este entendimento nasce do reconhecimento subjetivo coletivo de uma luz de esperança nos horizontes do cotidiano banal. As grandes mobilizações populistas na América Latina e no Brasil no século XX conduzidas por líderes carismáticos como Peron ou Vargas ganharam força na valorização da defesa dos interesses nacionais e de promoção dos mais humildes. A campanha pelas ‘diretas já” em 1984 acenando para a redemocratização e as perspectivas de melhoria das condições econômicas também levaram as multidões às Ruas. Inclusive geraram as condições favoráveis para a reforma constitucional de 1988. Mais recentemente, o Movimento do Passe livre, em 2013, que defendia tarifa zero para o transporte, ultrapassou nas Ruas suas propostas iniciais para expressar um amplo descontentamento com a gestão estatal da vida pública.

No campo da política os motivos que movem as Ruas a favor da utopia democrática apenas se tornam uma força consciente quando os indivíduos são contaminados pelo sentimento do “bem comum” acenando para uma utopia liberatória geral.  O “bem comum” aparece como uma novidade cultural ao permitir superar as tradicionais dicotomias entre público e privado que inspiram os modelos republicanos modernos. Ele aponta na direção de um mundo nacional e transnacional mais justo e inclusivo. As utopias foram o cimento das grandes ideologias de “esquerda” e de “direita” dos séculos passados. Hoje, no contexto latino-americano e brasileiro a utopia democrática passa necessariamente pelo aprofundamento do debate moral e afetivo do “humano comum”. Este pode mover conscientemente as Ruas, superando as tensões permanentes entre autoritarismo e liberdade, entre colonialismo e autonomia nacional.

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