Esplendor do cosmopolitismo e tristeza dos trópicos (Artigo de jornal)

Kant foi um visionário. Há dois séculos, sem mesmo sair de sua cidade natal, Königsberg, ele intuiu no seu “A paz perpétua” (2008) a importância de um cosmopolitismo moral e político universal. O tema vem ganhando realce devido aos avanços culturais e tecnológicos da globalização. As pessoas viajam mais. Conhecer outro país ou ler em inglês constituem experiências estéticas esplendorosas. O choque cultural gerado pelas variedades de práticas, paisagens e hábitos permite sair do provincianismo. 

Mas o cosmopolitismo não é vivido igualmente por todos os indivíduos. Diria que para grande parte destes a vivência do cosmopolitismo é apenas simulada pelas imagens de TV. Para esta “humanidade” não é o cosmopolitismo que inspira seus desejos mas apenas a realidade dos “Tristes trópicos” (Lévi-Strauss , 1955). Hoje, desemprego, fome, humilhação, medo, violência e destruição ambiental aparecem como muita nitidez para vitaminar esta tristeza. 

Há dois cosmopolitismos. Há aquele neoliberal que valoriza o individualismo consumista e que despolitiza os indivíduos levando-os a desqualificar subjetivamente sua identidade nacional. O fantasma da desintegração da sociedade nacional gera reações defensivas como a do nacionalismo autoritário. As práticas neoliberais enfraquecem igualmente os dispositivos de proteção social disponíveis e jogam as multidões desesperançadas nos braços do salvacionismo – por dentro e por fora do sistema legal. 

Na conjuntura de crise esboça-se uma reação intelectual difusa voltada para se pensar um novo projeto de modernização nacional, que seja transnacional. Emerge um cosmopolitismo crítico em parte da sociedade organizada. Há reformas urgentes a serem pensadas. Mas tais reações devem privilegiar o tema da solidariedade moral e social antes mesmo de trazer para o debate os interesses particulares político-partidários, corporativistas e mercantis. Afinal, de contas a tarefa central é repensar coletivamente os dispositivos simbólicos, materiais e afetivos da criação da Nação no novo contexto do sistema-mundo.

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