O individualismo e o narcisismo humano

Crônica publicada no Jornal O Povo em 04/04/2026

O individualismo é um dos mais intrigantes fenômenos das sociedades contemporâneas. À primeira vista, ele emerge como uma ideologia de conotação negativa. Individualista seria todo individuo egoísta que coloca os interesses pessoais acima daqueles coletivos e que compete de forma predatória em quaisquer das esferas da vida social. Esta impressão é verdadeira, mas insuficiente. O entendimento do individualismo tem que ser aprofundado para ele não ser enquadrado sumariamente como um mal social. Na verdade, todos somos, em maior ou menor grau, individualistas. Depende dos contextos. Somos individualistas quando lutamos por reconhecimento pessoal para ser donos de “nossos próprios destinos”. O individualismo precisa, então, ser entendido como tendência possível de uma ampla individualização social que produz a nossa complexa comunidade humana.

As variações recentes do individualismo são, todavia, preocupantes, pois os processos de formação de identidades estão sendo atingidos com violência pela lógica da mercantilização. O individualismo predatório está na origem de um processo autofágico, de destruição das instituições sociais e das práticas associativas, testemunhando o desaparecimento da sociedade do trabalho. isto gera incertezas e doenças psicossociais alimentando a máquina de produção de estereótipos. O fato é que a sociedade de consumo tem moldado os corpos e as mentalidades, enfraquecendo o humanismo.

Alguns estudiosos recorrem ao mito de narciso para explicar estas perdas de sentido ontológico, de efetividade institucional e de afetividade social geradas pelo excesso de auto-centramento do individualismo contemporâneo. Narciso, como sabemos, era um jovem belo, mas arrogante, que, ao se perder na miração de sua própria imagem no lago, conheceu destino funesto. A analogia é interessante porque explica que este individualismo narcisista que se fecha sobre si mesmo é resistente à alteridade. Ele se transformou numa ameaça ecológica que está comprometendo as perspectivas de uma sociedade de base convivialista e democrática. Talvez seja necessário mudar a posição do espelho de narciso para que o indivíduo possa organizar novas experiências liberatórias sensíveis e comprometidas com o comum.

Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑