Democracia de conveniência (Artigo de Jornal)

O capitalismo precisa da democracia? A resposta é incerta. Verdade que capitalismo e democracia avançaram juntos em alguns momentos, nos últimos dois séculos, mas não se inspiram em mesmos ideais. O privado teme o ideal redistributivista do público. Historicamente falando, o capitalismo lida com dificuldades com a participação social, pois isso implica compartilhar decisões estratégicas com assalariados e autônomos. O neoliberalismo é iliberal por romper com esta premissa moral. Ele considera que a livre acumulação do capital exige ruptura dos dispositivos de proteção social mesmo que isto implique aumento da violência sistêmica.

Nos séculos XIX e XX, as tensões entre capitalismo e democracia foram administradas pelas heranças de um comunitarismo modernizado. Os modelos de Estados do bem-estar social na Europa foram exemplos de tentativas bem-sucedidas de resolver os conflitos entre capital e trabalho pela intervenção estatal na organização de políticas de inclusão social. Mas o humanismo liberal da sociedade industrial foi sabotado pela ganância especulativa, rasgando o contrato social inspirado no ideal do trabalho comum. A ascensão do neoliberalismo na segunda metade do século XX desfez esta política de conciliação. Agora, a democracia liberal comunitária está à deriva, assombrada pelos fantasmas do totalitarismo.

O neocapitalismo ocidental (financeiro, rentista, bélico e extrativista) transformou a democracia em conveniência mercantil de alto poder destrutivo. Nas sombras da racionalidade ressentida retorna a arrogância neofascista que prefere modelos autocráticos mesmo que corruptos. A democracia de conveniência é uma saída que esconde a cupidez e a tolice histórica das elites locais associadas ao neoliberalismo. A democracia se torna instrumento cego de barganha, capricho de uma minoria arrogante fascinada com o mito adâmico. Mas o sonho de um programa liberal-comunitário voltado para conciliar riquezas privadas e distribuição de ganhos sociais e públicos, competitividade e cooperação, ainda continua sendo a melhor fórmula de paz social e política.

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