Racismo colonial (Artigo de jornal)

A tese do racismo estrutural sugerida por Silvio Almeida tem tido reconhecimento entre os estudiosos do tema, no Brasil, na medida que, segundo ele, a discriminação integra “a organização econômica e política da sociedade” (Almeida, 2019, p. 15). A tese é relevante por demonstrar que o racismo não é apenas expressão de comportamentos “anormais” de alguns indivíduos ou grupos que por alguma razão (étnica, moral ou social) se consideram “superiores” com relação a outros indivíduos.

A tese é relevante, também, porque demonstra que o racismo esclarece a genealogia do poder nacional pela classificação dos indivíduos entre mais brancos e menos brancos. Pesquisa que estou realizando sobre o tema com a professora Michele Guerreiro do Centro de Estudos Avançados da UFPE, tem nos levado a observar que ao lado – ou atrás – deste racismo estrutural, existe um racismo colonial que é herdeiro da hierarquia moral e cognitiva do sistema escravista. O racismo colonial ajuda a revelar que o sistema de dominação em sociedades que não romperam com os valores escravistas se apoiam num dispositivo poderoso de biopolítica, o branqueamento colonial.

Esta é uma modalidade particular de organização da dominação pós-escravista que reproduz o sistema colonial implantado pela colonização portuguesa. No modelo republicano liberal nos Estados Unidos a cidadania é dada como um direito a priori dos indivíduos envolvidos nas lutas antiraciais. No caso do racismo colonial no Brasil os direitos liberais da cidadania não estão dados a priori, porque as distâncias morais seculares entre colonizador e colonizado continuam a influir sobre a ordenação política, institucional e profissional. O entendimento das características particulares deste modelo de racialização de origem ibérica é importante para se conceber de modo mais realista as possibilidades das lutas antirracistas no Brasil. Aqui, o branqueamento é a meta da miscigenação envolvendo afrodescendentes mas, igualmente, outros grupos populacionais como os indígenas, as mulheres e, também, estrangeiros não brancos. 

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