Um transatlântico chamado Brasil (Artigo de jornal)

No final dos anos setenta, na França, ouvi do sociólogo Alain Touraine que os desafios de redemocratização de um país como Brasil eram enormes. O Brasil lhe parecia, na época, um transatlântico navegando em águas agitadas exigindo manobras arriscadas. Recentemente, reencontrei casualmente com Touraine em Paris, e ele fez comentário semelhante. Achei curioso pois no primeiro momento o clima era da redemocratização, agora de ameaça de desinstitucionalização da democracia.

Os desafios que cercam agora Bolsonaro são aqueles de um comandante que deve pensar em todos os passageiros da nave e não apenas nos seus simpatizantes. Como conciliar a retórica direitista e belicista com os desafios práticos voltados para enfrentar democraticamente a crise, que é estrutural, e que exige amplas negociações com diversos setores sociais? Não adiantam medidas paliativas. Não basta comprometer os recursos orçamentários para o social e não tocar na sangria representada pelo pagamento de juros exorbitantes ao sistema financeiro. Não sendo a crise conjuntural, ela exige ações planejadas de curto, médio e longo prazo. O planejamento agrada os setores militares, mas não as grandes empresas privadas, sobretudo as multinacionais, que entendem constituir o planejamento governamental uma ameaça efetiva à livre circulação das forças mercantis a nível global. 

Este vai ser um grande problema para o governo Bolsonaro: de um lado, militares simpáticos a iniciativas nacionalistas sobretudo nas áreas de energia e comunicação, de outro, economistas neoliberais, comandados por Paulo Guedes, que sugerem ampla desnacionalização. Ainda temos que lembrar que em condições normais de funcionamento da democracia liberal, medidas importantes, sobretudo as que exigem reformas constitucionais, dependem largamente de negociações árduas com as instituições republicanas e com os diferentes interesses partidários. Enquanto o transatlântico desliza fiquemos com o olhar atento no horizonte da política.

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