A delicada natureza da República (Artigo de jornal)

Entre os acordos políticos inventados pela Humanidade na sua história um dos mais delicados e bem acabados é aquele republicano, em particular aquele democrático. Trata-se de um acontecimento extraordinário a possibilidade de valorização da igualdade e da liberdade como lastros morais compartilhados para resolver os dilemas entre o privado e o comum. Estado e Nação são termos de uma obra de engenharia republicana complexa, um não podendo existir sem o outro.

Se o Estado constitui o conjunto de dispositivos politicos, juridicos e administrativos necessários para ordenar as diversas atividades humanas no território, a Nação representa a unidade semântica que dá orientação histórica, moral, sentimental e cultural a este Estado. A Nação se constitui a partir de três dispositivos importantes: a Pátria, que revela o sentimento comum dos individuos e grupos sociais cimentando suas diferenças; o Povo, que expressa a unidade política e de ação das populações territoriais; e a Cidadania, que constitui o dispositivo de equalização das diferenças permitindo a organização de uma linguagem compartilhada de direitos e de deveres individuais e coletivos.

Quando a Nação se enfraquece o Estado perde seu rumo. A difusão da ideologia neoliberal tem enfraquecido o sentimento pátrio e a mobilização política popular, nacional e cidadã no Brasil. Assistimos a fragilização dos dispositivos da nacionalidade e a desorganização da da máquina estatal. Quando funcionários administrativos, representações politicas, empresários e classes médias urbanas não vêm mais sentido na nacionalidade e na pátria sonhando com um cosmopolitismo abstrato, o Estado-Nação tende a naufragar, a Pátria perde sentido e a Cidadania se enfraquece.

Neste momento cabe propor uma pergunta, a saber: qual o futuro de um Estado sem Nação e governado pelos interesses das forças globais? Todos os brasileiros independentemente de suas orientações doutrinárias deveriam refletir sobre esta questão. Pois o que está em jogo é a própria sobrevivência da nacionalidade. Mas temos que pensar a nação numa outra perspectiva, que englobe a diversidade e a pluralidade sem perder de vista a perspectiva do público e do comum.

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