A colonização digital do desejo: as bets como fenômeno social

Paulo Henrique Martins

Nota sociológica a partir da crônica “As bets e a colonização da experiência social”, publicada no jornal O Povo (Ceará) em 25/07/2026.

Da crônica à questão sociológica

O jogo acompanha a história das sociedades humanas. Há registros dessa prática em diferentes civilizações e, em suas diversas formas, o jogo sempre combinou competição, risco, expectativa e acaso. No Brasil, as loterias e o jogo do bicho constituíram modalidades historicamente conhecidas dessa experiência. A expansão recente das chamadas bets, entretanto, introduz uma transformação qualitativa. Não estamos apenas diante de uma nova modalidade de aposta, mas da incorporação do jogo à lógica do capitalismo digital, com plataformas capazes de operar em tempo real, coletar dados e produzir estímulos continuamente ajustados ao comportamento de cada usuário.

É justamente essa passagem que merece uma leitura sociológica. A questão não consiste apenas em saber por que as pessoas apostam, mas em compreender o que ocorre quando o desejo, a esperança e a vulnerabilidade econômica passam a ser organizados por dispositivos algorítmicos. As bets deslocam o jogo de espaços e momentos relativamente delimitados para o interior da vida cotidiana. O celular transforma-se simultaneamente em meio de comunicação, instrumento financeiro, espaço de lazer e porta permanente de acesso à aposta.

A captura algorítmica da experiência

O capitalismo digital não se limita à venda de mercadorias. Uma de suas características centrais é a capacidade de transformar comportamentos humanos em informações economicamente apropriáveis. Shoshana Zuboff chamou atenção para esse processo ao analisar a formação do capitalismo de vigilância: a experiência humana passa a fornecer matéria-prima para sistemas de coleta, previsão e modificação de comportamentos.

No universo das apostas digitais, essa lógica adquire uma intensidade particular. A plataforma aprende com o jogador: registra horários, frequência, valores apostados, preferências e reações diante de ganhos e perdas. O usuário imagina estar apenas escolhendo suas apostas, mas participa de uma relação assimétrica na qual a plataforma dispõe de uma capacidade de observação e processamento muito superior. A antiga casa de apostas conhecia seus clientes de maneira limitada; a plataforma digital pode acompanhar continuamente os rastros comportamentais produzidos pelo usuário.

O problema sociológico aparece, então, na própria estrutura da relação. O algoritmo não é simplesmente uma ferramenta neutra colocada entre o jogador e o jogo. Ele participa ativamente da organização da experiência, modulando estímulos, recompensas e expectativas. A aposta deixa de ser apenas um acontecimento e tende a converter-se em circuito permanente de excitação, frustração e renovação da esperança.

Colonialidade digital e colonização do desejo

A noção de colonialidade, desenvolvida na América Latina por Casanova, Quijano, Dussel e outros permite ampliar essa interpretação. A colonialidade histórica organizou formas duradouras de classificação, exploração e apropriação de territórios, corpos, trabalho e recursos. O capitalismo digital reforça um neocolonialismo que ultrapassa o campo das territorialidades objetivas para penetrar os dispositivos de subjetivação coletivos. Aqui, aparecem novas modalidades de apropriação que não substituem aquelas formas anteriores, mas se articulam a elas, moldando valores, prioridades e decisões gerados pelas subjetivações digitais. Dados, atenção, afetos, expectativas e desejos passam a constituir recursos economicamente exploráveis neste novo universo colonial que penetra o campo do desejo e da intimidade.

Por isso, pode-se falar, de maneira exploratória, em uma colonialidade digital do desejo. O que está em jogo não é uma equivalência simples entre colonialismo histórico e plataformas digitais. Trata-se de identificar uma lógica comum de apropriação assimétrica que atinge os processos de formação dos imaginários coletivos e individuais por dentro e por fora. As bets transformam vulnerabilidades econômicas e emocionais em oportunidades de rentabilidade sem limites, mesmo que isto implique em dividas impagáveis que levam muitas familias a se tornarem mais precárias. A esperança de melhorar rapidamente de vida, particularmente intensa em contextos marcados pela desigualdade e pela insegurança econômica, torna-se matéria de exploração mercantile que contamina as bases objetivas de decisões racionais.

A promessa de enriquecimento rápido é especialmente poderosa porque mobiliza uma experiência subjetiva anterior ao próprio jogo: o sentimento de que os caminhos institucionais de mobilidade social são lentos, bloqueados ou insuficientes. Nesse contexto, a aposta pode aparecer como atalho imaginário para uma transformação da vida, o que é apenas uma ilusão. Pois a plataforma não cria sozinha esse desejo. Ela o captura, reorganiza e monetiza.

Endividamento e desorganização das reciprocidades

A expansão das bets também precisa ser observada para além do indivíduo para se entender suas implicações sociais. Quando parcelas do orçamento doméstico são deslocadas para apostas recorrentes, os efeitos atingem as relações familiares e comunitárias. Recursos destinados à alimentação, ao pagamento de contas, ao lazer ou à ajuda entre parentes podem ser absorvidos pelo circuito das plataformas. O endividamento deixa, assim, de ser apenas um problema financeiro individual e passa a interferir nos sistemas cotidianos de solidariedade.

Essa dimensão é particularmente importante para uma sociologia relacional. A vida econômica das famílias não é formada apenas por indivíduos que calculam isoladamente custos e benefícios. Ela depende de pactos explícitos e implícitos de reciprocidade: pessoas sustentam filhos, ajudam parentes, dividem despesas, emprestam dinheiro, cuidam de idosos e constroem formas de segurança coletiva. Quando a aposta compulsiva desorganiza esses circuitos, o dano alcança a própria qualidade dos vínculos sociais.

Os dados produzidos pelo Banco Central sobre transferências destinadas às empresas de apostas e estudos divulgados sobre o mercado de apostas de quota fixa e os fluxos financeiros associados às plataformas de apostas, ajudaram a tornar visível a escala econômica vultosa alcançada pelo fenômeno, no Brasil. Mas os números precisam ser interpretados sociologicamente: por trás dos fluxos monetários existem expectativas, frustrações, conflitos familiares e deslocamentos de recursos que afetam de maneira desigual diferentes grupos sociais.

Uma questão pública, e não apenas privada

É insuficiente tratar o problema exclusivamente como falta de autocontrole do jogador. Evidentemente, escolhas individuais existem e não podem ser eliminadas da análise. Mas elas ocorrem dentro de desenhos digitais deliberadamente organizados para prolongar a atenção e estimular a repetição do comportamento. Pesquisas internacionais sobre jogos de azar online vêm discutindo justamente os riscos associados à disponibilidade permanente, à rapidez das apostas e às características de design capazes de intensificar o envolvimento do usuário.

Isso transforma as bets em questão pública. A regulação não pode limitar-se à arrecadação tributária ou à formalização empresarial do setor. Ela envolve também publicidade, proteção de menores, transparência dos algoritmos, mecanismos de prevenção do jogo problemático, limites aos estímulos personalizados e políticas de educação digital e financeira. Quando uma atividade econômica possui capacidade de produzir efeitos sistêmicos sobre famílias e grupos vulneráveis, o Estado não pode considerá-la apenas como relação privada entre consumidor e empresa.

A expansão das apostas digitais revela, desse modo, uma questão mais ampla do capitalismo contemporâneo. As tecnologias digitais aumentaram extraordinariamente nossa capacidade de comunicação e circulação de informações, mas também criaram instrumentos inéditos de captura da atenção e da experiência. As bets constituem um laboratório particularmente visível desse processo porque transformam diretamente esperança, risco e desejo em fluxo financeiro. Compreendê-las sociologicamente significa perguntar não apenas quanto dinheiro circula nesse mercado, mas que tipo de sociedade emerge quando os próprios desejos humanos passam a ser continuamente observados, estimulados e convertidos em valor econômico.

Referências essenciais

DUSSEL, Enrique. 1492: o encobrimento do Outro. A origem do mito da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1993.

GONZALEZ CASANOVA, Pablo. Exploração, colonialismo e luta pela democracia na América Latina. Petrópolis: CLACSO/Editora Vozes, 2002.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales. Buenos Aires: CLACSO, 2000.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

DELFABBRO, Paul; KING, Daniel L. Pesquisas sobre jogos de azar online, comportamento de risco e características estruturais das plataformas digitais de apostas.

Série: Notas Sociológicas — textos de intervenção pública que retomam e ampliam sociologicamente temas desenvolvidos nas crônicas do autor.

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