Liberdade e vida na política (Artigo de jornal)

Na terça, 7 de dezembro, Bolsonaro afirmou que se nega a adotar o ‘passaporte da vacina’ para viajantes. Disse: “Prefiro morrer do que perder minha liberdade”. No mesmo dia, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, repetiu o presidente com o jargão: “Às vezes, é melhor perder a vida do que perder a liberdade”.

Num ambiente acadêmico estas palavras poderiam soar como manifestação de um filósofo hedonista, valorizando a moral utilitária de ampliação dos prazeres e diminuição das dores. Mas o hedonismo popular de Bolsonaro é mais estreito e se limita à proclamação do egoísmo e da gratificação sensorial de curto prazo dos indivíduos, sem considerar as consequências sociais e políticas desta atitude. Aqui, o hedonismo popular de Bolsonaro assume fatalmente um tom macabro, doentio, sendo sintoma de ausência de empatia emocional.

Pois as declarações de ambos não foram pronunciadas num ambiente acadêmico e, sim, numa conjuntura política marcada por mais de 600 mil mortes pela pandemia. Esta patologia explica em parte o negacionismo dos que não querem tomar a vacina. Na Espanha, as taxas de infecção entre aqueles que ainda não foram vacinados são até três vezes maiores que as dos que já foram.

T. Eagleton no seu “O sentido da vida” (2020) esclarece que nossa tendência destrutiva é muito influenciada por uma fé inconsciente em nossa própria imortalidade e que, de fato, estamos na presença do farsesco e do carnavalesco. Assim, não podemos nem mesmo chamar de nosso o sofrimento social “pois o sujeito humano implodiu junto com a história a que pertencia.” Para sair deste pesadelo deveríamos resgatar, sugere, uma memória ou uma experiência de sentido na vida que está pouco disponível no mercado dos sonhos humanos.

Isto é possível, diz, se conseguirmos nos voltar para nossa herança e entender com Aristóteles que a felicidade que buscamos não está no culto ao hedonismo, mas num modo de agir virtuoso que é em grande parte um agir social. Pois a forma de amor mais desejável exige reciprocidade entre os indivíduos, sobretudo daqueles responsáveis pela governabilidade.

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