Crise da república oligárquica (Artigo de jornal)

Em sociedades como a brasileira, o encolhimento do estado significa também o encolhimento da nação e dos dispositivos simbólicos e materiais que asseguram os fundamentos políticos, jurídicos, morais e afetivos da sociedade nacional. De modo geral, nos regimes republicanos modernos que envolvem territórios amplos com vários centros urbanos, estado e nação nascem e se expandem juntos: o primeiro organizando os dispositivos políticos, jurídicos e administrativos; o segundo, produzindo as disposições coletivas, afetivas e morais que viabilizam a formação de um arco de solidariedade necessário para atravessar as diferenças de classes, étnicas, religiosas, de gênero, de sexo e geracionais. No caso de sociedades de origens coloniais como a brasileira, o processo de formação do estado nacional é mais complicado. Por um lado, não havia naquele momento de fundação do pacto republicano, no final do século XIX, o que a teoria marxista chama de “burguesia nacional”. As oligarquias econômicas pensavam apenas o regional. Por sua vez, o que o liberalismo chama de “sociedade civil” eram agrupamentos populacionais diversos formados por ex-escravos e homens e mulheres livres que também não pensavam o nacional.

A ideia de projeto nacional, logo, foi uma construção discursiva concebida nas hierarquias de poder da Igreja (pensando o universalismo cristão) e dos militares (pensando a integração territorial). O pacto republicano brasileiro foi pensado de cima para baixo organizando os interesses das elites dirigentes nas fronteiras do público e do privado, por um lado, e reprimindo as tentativas dos movimentos sociais organizados e das classes médias urbanas por maior participação política, por outro. O que presenciamos neste momento é um processo de desmonte de um sistema de poder estatal capitaneado por elites oligárquicas corrompidas e testemunhado por uma nação desorganizada e prisioneira de suas fraturas identitárias, sem conseguir eleger a democracia plural e participativa como bem maior para orientar a resistência política. O impasse político pode ter efeitos funestos pois nestas sociedades pós-coloniais o enfraquecimento do estado significa desorganização da nação e impossibilidade democrática. A fragilidade da república democrática fica exposta internamente e externamente, denegrindo a imagem do Brasil.

Os comentários estão encerrados.

Um site WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: