O mundo novo ainda é um mistério (Artigo de jornal)

Que o mundo antigo dominado pela ansiedade do consumo e da acumulação não tinha condições de continuar indefinidamente todos sabíamos. Os sintomas eram claros: crescimento da desigualdade, miséria, violência, devastação ambiental. A crença neoliberal de que o mercado regularia espontaneamente a sociedade demonstrou ser uma falácia. Mas não se imaginava que a situação limite seria potencializada por uma pandemia, a do coronavirus, e não pelos movimentos sociais, feministas, juvenis e ecológicos. Contudo, o mundo novo que vai surgir sobre as cinzas do velho ainda é um mistério. É útil pensarmos alguns cenários tanto a partir da perspectiva do micro como do macrossocial. No plano do macro já observamos claramente a importância do Estado como agente central no enfrentamento da crise, desmontando todas as teses dos economistas neoliberais que sonhavam em substituir o aparelho estatal pelo mercado.  

Mas, aqui, temos pelo menos quatro variações de modelos políticos. O primeiro deles tem a ver com o reforço da via do planejamento centralizado e controlado em países que já têm uma tradição histórica autoritária como China e Rússia. O segundo está relacionado com aqueles países onde predominam o Estado do Bem Estar que vinha sendo progressivamente desmantelado, como os países europeus. O terceiro tem a ver, sobretudo, com as sociedades periféricas nas quais prosperam tipo de Estado de natureza oligárquica que lidam permanentemente com o dilema entre autoritarismo e democracia. O quarto tem a ver com o surgimento de relações solidárias no plano das relações interpessoais e comunitárias inspirando novos modelos institucionais e políticos.

A saída democrática vai depender então de como os indivíduos reagem no plano microssocial. Aqui é fundamental observar se a experiência do trágico será capaz de mobilizar os indivíduos e grupos sociais para construírem arcos de solidariedade nacionais mais inclusivos e solidários. A saída por baixo depende do modo como os indivíduos vão decidir a questão da provisoriedade da vida. Vamos viver juntos? Ou vamos morrer separados?

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