Viver a finitude com lucidez é sabedoria

Crônica publicada no O Povo em 07/03/2026

Uns tempos atrás, uma pessoa admirável desistiu de viver. O que a moveu?  desespero? tristeza? Ou lucidez? Poderia ser desespero ou tristeza considerando que o tempo da finitude estaria limitando praticar o que mais apreciava: caminhar, viajar, dançar, escrever. Mas poderia ser de lucidez caso tenha concluído que ao ter realizado na vida quase tudo que gostaria de fazer – como mulher, como mãe, como profissional, como viajante – não se sentiria mais estimulada para encontrar motivos extras para continuar vivendo num mundo desinteressante. Quem pode julgar alguém que, depois de ter vivido experiências intensas chegou à conclusão que tudo se tornou banal ou difícil de lidar?

Há outra situação curiosa a ser considerada sobre este tipo de decisão e que é retratada por um belo filme sul-coreano intitulado “Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera”. Nele, um sábio budista que vivia num templo no meio de um lago decide também encerrar sua jornada, entregando seu corpo às labaredas que incendiaram seu barco vazio. O velho sábio tomou esta decisão para que seu discípulo querido pudesse continuar a jornada de guardião do templo.

Estas decisões complexas contêm ensinamentos importantes sobre os dilemas do ser humano num mundo que cultiva prazeres frívolos e imediatos e adia temas sérios. Como lidar com a morte em sociedades em que o materialismo espiritual torna o corpo objeto de consumo e não de culto ritual? O fato é que as promessas de rejuvenescimento ou de prolongamento da vida não eliminam a inevitabilidade do fim.  Está é a grande aprendizagem: aceitar que a imortalidade é uma ilusão e que a finitude é inevitável. Esta conclusão dramática é a grande verdade que todos independentemente de serem ricos ou pobres, religiosos ou laicos, precisam lidar.  Mas, sem dúvidas, a confissão de fé em si mesmo, a auto-análise da vida vivida, o balanço positivo ou negativo das memórias, são aspectos que contam muito no momento final.

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