Crônica publicada no jornal O Povo de Fortaleza em 07/02/2026
A expansão de criatórios de seres vivos não com finalidades ecológicas, mas, ao contrário, para a produção industrial de proteína animal está mudando as classificações das espécies. Porcos, vacas e peixes são agora valorizados não por suas naturezas como sencientes, mas pelos seus teores proteicos. Noticiário recente da imprensa chama atenção pelo modo como se faz merchandising do assunto. Diz a matéria que os chineses conseguiram transformar a enguia, que é iguaria apreciada no Oriente, em “ouro da aquicultura” e que a China opera megafazendas que lideram a produção dessa “proteína premium” no planeta. O anúncio chama atenção por reforçar uma tendência recente de produção de massa de seres vivos para atender uma cultura de consumo utilitarista marcada pela busca de “saúde perfeita”, ou seja, que cultiva o corpo proteico como base de uma vida feliz.
Há problemas ecológicos e éticos graves nestas tendências do mercado de consumo. Um deles, o ecológico, o de que a busca de aumento da produção de proteínas baratas está trazendo graves problemas ambientais como é claramente demonstrado pela expansão da pecuária gerando desmatamento, degradação do solo e perda da biodiversidade além do aumento da emissão de gases com efeito estufa. O outro, o ético, é revelado pelo fato de que a mercantilização da natureza, sobretudo de animais, despreza a senciência dos animais, suas capacidades de ter sensações e emoções, ao valorizar mais o produtivismo proteico que o bem-estar dos viventes.
A expansão deste projeto de transformação de seres em proteínas nos sugere que estamos vivendo um processo de canibalização, de consumo compulsivo de outros organismos. Isto ocorre não por razões de sobrevivência ou de reprodução, mas pela ansiedade dos indivíduos de terem uma “saúde perfeita” que os permita prolongar a ilusão da infinitude do corpo físico. Mas a depredação ambiental gerada por este tipo de modelo de vida provoca impactos sobre as condições de sustentabilidade do planeta e dos próprios indivíduos.
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