Crônica publicada no O Povo (Ceará) em 13/12/2025
A violência colonial se materializou historicamente pelos saques de riquezas naturais e para atender o desejo de punição vingativa contra os inimigos “infiéis”. O “novo mundo” conheceu assim o veneno das cruzadas de Jerusalém. A modernidade republicana não eliminou esta paixão destrutiva como vemos atualmente nas guerras e nas políticas de extermínio envolvendo pobres, negros, mulheres e migrantes. No Rio de janeiro, por exemplo, segmentos religiosos apoiam tanto traficantes como, no lado contrário, massacres de traficantes e a piedade universal cede lugar ao desejo de vingança. Como fica a regulação democrática quando se perde o sentido de uma justiça comum? Isto num contexto em que a direita radicalizada flerta com a necropolítica e com a privatização dos bens estatais?
O estoico Sêneca em Da tranquilidade da alma defendia a paciência como recurso para se manter a confiança em tempos adversos, afirmando que quando algo de difícil resolução lhe acontecia ele voltava-se para seu retiro. Recuo não como indecisão, mas como prudência exigida por um tempo de reflexão necessário para conter o tempo da pressa irrefletida. A paciência se revela aqui com antídoto para conter a fúria dos radicalistas desejosos de poder e de vingança.
A pressa é inimiga da governança sábia. A paciência, ao contrário, favorece uma experiência de sabedoria que brota como flor de pacificação. Aqui, o tempo ajuda no resgate da confiança mútua e do juízo justo na esfera pública. Contra o egoísmo que se materializa no ressentimento e no orgulho radicalizado, a boa política prega a paciência para poder valorizar o bom senso na lapidação dos direitos de cidadania. Tais reflexões são úteis no momento em que muitos indivíduos e grupos empoderados parecem esquecer que a liberdade de ter direitos – existenciais, civis, econômicos, políticos e ambientais, equitativos e diferenciados -, é uma dádiva ofertada a todos, e germinada em momento anterior por legisladores e cidadãos que tiveram paciência para organizar os direitos constitucionais.
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