Artigo publicado no O Povo em 8/03/2025
Posso ajudar, por favor? Vamos celebrar? Todos os dias, o dia todo, vivemos estes rituais de trocas solidárias: nos círculos de familiares e de amigos, no trabalho e nos encontros festivos. Ou seja, para haver relacionamento sincero alguém tem que tomar a iniciativa de oferecer algo a outrem como prova de generosidade espontânea. A pessoa convidada para o ritual pode até recusar a gentileza. Neste caso, nada muda. Mas caso aceite, o milagre acontece: a vida se torna uma dádiva e gera o pacto social. Aceitando livremente a gentileza, o destinatário pronuncia a palavra mágica: “obrigado”. O agraciado é convidado a retribuir a gentileza e assim brotam o pertencimento e as redes sociais. O agradecimento funda uma obrigação simbólica entre as partes. De nada, foi um prazer!!! A dádiva/dom é um mistério. Ela revela uma regra arcaica universal – dar-receber-retribuir – que Mauss observou em todas sociedades já existentes. O dom valoriza a aposta na confiança para gerar pactos – morais, jurídicos e afetivos -, coletivos e individuais, envolvendo próximos e estranhos. Ele promove o prazer de viver juntos desconstruindo ressentimentos e conflitos.
A dádiva festiva é a prova de que a vida não é apenas consumo individualista e que a reciprocidade mútua espontânea é politicamente mais interessante que aquela mercantil do dar-pagar que produz anônimos e estranhos. Por tudo isto, o carnaval aparece como um momento precioso para converter a lógica do mercado em regras solidárias da dádiva, a serem celebradas com prazer mútuo. Trazer a alegria para a vida é uma justa homenagem ao deus Baco. Amigos e adversários se abraçam, ressentimentos são dissolvidos por canecas de cerveja que tilintam no ar. A rua se torna um palco mágico para as pessoas se olharem e sorrirem no ritmo do batuque e da dança. Este é um momento único para se desconstruir o egoísmo e se festejar a vida como experiência da alegria.
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