Guerra e Paz

Artigo publicado no Jornal O Povo em 24/08/24

O romance “Guerra e Paz” de L. Tolstói aborda dramaticamente a guerra entre França e Rússia e as intrigas das elites dominantes nas primeiras décadas do século XIX. Para o autor, aqueles eventos sugeriam que o livre-arbítrio humano estaria submetido a um implacável determinismo histórico que definiria a felicidade e a tragédia. Esta obra continua apropriada para se pensar o mundo, hoje, revelando a persistência de uma lógica de conflito nacionalista e étnico que questiona o discurso ufanista da globalização. De fato, pensando nas guerras no século XX e XXI e no atual conflito entre Ocidente e Rússia, os pressentimentos de Tolstói parecem se confirmar.

Porque esta tendência ao morticínio? Convidemos o olhar oriental. O filósofo indiano J. Krishnamurti no seu “A primeira e a última liberdade” lembra que a causa da guerra é o “desejo de poder, posição, prestígio, dinheiro além dessa praga chamada nacionalismo”. O comentário é oportuno por sugerir que os discursos em defesa da globalização revelam motivações ocultas que escondem alucinações nacionalistas e belicistas que desconstroem continuamente os sentidos humanistas e democráticos. O autor indiano explica a guerra como resultado não de meras lutas guiadas por ideais abstratos, mas por razões concretas ligadas a nossos relacionamentos uns com os outros. Sendo esses relacionamentos fundados em grande parte em crenças e dogmas pelos quais estamos dispostos a morrer e matar, então a guerra é ao mesmo tempo uma experiência de conflito, externa e interna a cada um. Ela agrava nossa insegurança psicológica, por um lado, e o desejo de poder, dinheiro, conforto e segurança física, por outro.

Por isso, sublinha o autor indiano, o mundo precisa de uma revolução psicológica voltada para acabar a guerra dentro de nós, para liberar relacionamentos saudáveis que expandam nossas capacidades de amar e construir pensamentos corretos. A paz somente virá quando não mais adiarmos esta ação de transformação interior que leva à ação exterior. Isto implica, nós concluímos, na valorização de um olhar inteligente sobre a finitude.

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