O fascismo e o fervor das massas

Artigo publicado no Editorial de O Povo em 10/02/2024

O fascismo é a prova viva de que a racionalidade técnica moderna não está atrelada a uma ética humana, servindo como artifício para manipulação ideológica e estetização da violência. As expressões fascistas se atualizam com as tecnologias virtuais, mas ainda guardam algumas características daquelas surgidas na Alemanha e na Itália antes da segunda guerra, sobretudo ao refletir a relação orgânica entre ideologia autoritária e crise econômica e política. A suspensão da sociedade centrada no trabalho contribui para desorganizar as energias das massas que ficam assustadas com a pobreza e com a falta de perspectivas de vida. O declínio da racionalidade iluminista testemunha as pulsões “irracionais” dos indivíduos humanos de diversas camadas sociais, se movendo nos pântanos da modernidade regida pela violência. As dúvidas sobre o futuro levam as massas a se moverem com fervor nas incertezas do presente.

As práticas fascistas brotam desta crise existencial, deste medo de perecer que acende os instintos de sobrevivência nas sombras da indignação. Este clima encoraja o surgimento de sistemas de dominação manobrados por lideranças carismáticas que acenam para a redenção e a vingança. A vitimização grupal favorece a criação de inimigos reais ou fantasmagóricos no território nacional e nos países vizinhos, que são alvos prediletos dos fascistas. Este fenômeno de massa contemporâneo revela a crise da ideologia do progresso da modernidade e o renascimento do racismo institucional.

Neste contexto, as lutas pela democracia não podem se limitar a políticas assistencialistas, exigindo a esperança de outro mundo mais solidário. Por isso, as lutas democráticas precisam considerar o bem comum em relação a outros desafios: combate a desigualdade, garantia do pluralismo e da diversidade e, sobretudo, promoção da liberdade humana como a maior conquista civilizacional. Temos que aprender com experiências como a brasileira de Bolsonaro e a argentina de Milei para entender que os riscos de crises da democracia existem, mas que podem ser enfrentados.

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