A queda de braços entre o Executivo e o Legislativo, entre Lula e Lira, em torno das ementas para assegurar apoio dos deputados à governabilidade, escancara a enfermidade da democracia representativa no Brasil. A palavra “Centrão”, até algum tempo atrás, se referia a um grupo significativo de parlamentares pragmáticos e indiferentes às ideologias de direita e de esquerda. Agora, o grupo passa a ser cooptado pelos grandes financiadores privados, tornando visível a mercantilização da política.
O individualismo utilitarista passa a funcionar como a regra lógica que determina os tipos de alianças e apoios que os parlamentares oferecem ao Governo. Sempre em troca de valores monetários crescentes para usos personalizados nas bases estaduais e municipais. Os recursos orçamentários que deveriam ser distribuídos de forma planejada pelos diferentes ministérios, passam a ser apropriados individualmente desfazendo a lógica do bem público e atualizando o poder oligárquico.
Temos aqui um novo tipo de clientelismo que não se limita mais à dominação patrimonial do mundo agrário que era tradicionalmente identificada com o Nordeste. O novo clientelismo agora se espalha em todo o território nacional. Suas bases eleitorais privatistas foram reforçadas por Bolsonaro. Na ânsia de sobreviver politicamente, ele abriu as porteiras do orçamento público renunciado a seu discurso da antipolítica e reforçando o populismo da direita.
Esta ação contribuiu para desorganizar ainda mais os já precários mecanismos de planejamento estatal, comprometendo a aplicação com justiça fiscal dos recursos públicos da União. A democracia no Brasil sobrevive, então, aos trancos e barrancos, num contexto político marcado por um sistema social com muitas manchas de despolitização.
Temos um sistema político dependente de modo crescente da ideologia mercadológica e da ganância de poder. A saída passa pela organização de critérios políticos e jurídicos de negociação que fortaleçam o presidencialismo e reagrupem as forças políticas heterogêneas em formações partidárias ideologicamente mais representativas.
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