Paulo Henrique Martins, o Fórum ISA de Sociologia e o Foro Sur-Sur (Entrevista)

De 4 a 6 de agosto de 2012, aconteceu em Buenos Aires o II Fórum ISA de Sociologia que, nesta edição, dedicou-se ao tema da Justiça Social e Democratização e contou com variados grupos de trabalho.  O evento foi seguido pelo Foro Sur-Sur: Ciencias sociales y colonialidad del saber. Teoría y Praxis, dia 6. Para falar sobre a importância dos dois eventos, o ex-presidente da ALAS (Associação Latinoamericana de Sociologia), Paulo Henrique Martins, concedeu uma entrevista à jornalista argentina Cecilia Aldines, da Agência Télam, que o BoletIN reproduz agora.
 
Pergunta – Como presidente da ALAS, qual sua expectativa para o próximo Fórum ISA?

Resposta – Como expliquei anteriormente, não há como negar a importâcia do trabalho político de nossos colegas Bialakowsky e Alicia Palermo para a realização do Fórum e, sobretudo, a importância de nossas instituições acadêmicas. Eles perceberam que a realização do Fórum da ISA na América Latina era uma iniciativa central para ampliar a presença da sociología latinoamericana no plano mundial. Como presidente da ALAS, gostaria de dizer que tais iniciativas espelham claramente as expectativas da maioria dos nossos associados.
 
Pergunta – O Fórum está organizado a partir de que grandes temas?

Resposta – O tema geral do Fórum da Isa, “Justiça Social e Democratização”, espelha aspectos centrais do problema do desenvolvimento mundial, neste momento, de modo particular, na América Latina. Como sabemos, o modelo dominante da modernização regional tem favorecido práticas autoritárias – através da centralização das decisões de políticas nacionais por uma tecnocracia elitista, alianças dos setores tecnocráticos com as oligarquias conservadoras e com grandes empresas estrangeiras – e moralmente injustas, pois tem contribuído para ampliar as desigualdades em termos de acesso de todos os individuos às mesmas condições de trabalho, educação, saúde, lazer e participação política. Desta maneira, juntar em um mesmo tema o debate sobre justiça e democraria favorece uma reflexão mais ampla sobre a compelxidade da democracia, que não pode se limitar apenas aos mecanismos de voto e representação eleitoral. Há desafios mais amplos relacionados a adoção de políticas de reconhecimento de diversidades e inclusão moral e afetiva que são decisivos para se repensar o termo democracia.

Pergunta – Será feito algum anúncio de importância para a região?

Resposta – Confesso não conhecer detalhes das conferências principais do Fórum da ISA. Todavia, considerando a importância dos conferencistas do evento, vamos ter, certamente, anúncios importantes para se pensar a região como parte distinta porém complementar da sociedade global.

Pergunta – Como você descreveria o pensamento que atualmente representa a sociología na América Latina?

Resposta –Neste momento, a América Latina avança rapidamente em uma crítica teórica importante de desconstrução da colonialidade de poderes e saberes e, em especial, dos modelos de desenvolvimento centralizados e dependentes. A realização de um Fórum Sur-Sur, logo em seguida do Fórum da ISA, patrocinado por importantes associações latinoamericanas como ALAS, AAS e ACAS (Associação Centroamericana de Sociologia) e também apoiada pela ISA, constitui uma conquista original e inovadora para se deslocar os lugares tradicionais de construção coletiva da sociologia localizada mundial e regionalmente. O Fórum Sur-Sur, que resulta de um esforço coletivo de importantes associações e colegas como Alberto Bialakowsky, Breno Rangel, Alicia Palermo, eu e outros, inaugura a perspectiva de um diálogo crítico mais permanente entre investigadores e ativistas simultaneamente a partir das margens do sistema global. A ideia de margem aqui não é só geográfica mas igualmente política à medida que o Fórum Sur-Sur ambiciona integrar igualmente o pensamento crítico pós-colonial e desprovincianizador que se desenvolve nas bordas institucionais do pensamento tradicional modernizador do chamado Centro do sistema. Isso explica que o apoio da ISA ao Fórum Sur-Sur é igualmente o apoio a novas ideias de crítica da crise da globalização neoliberal e da crise de teses convencionais que não se abrem para explicar as diversidades das identidades, a atualização de tradições e o surgimento de novas utopias.

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